As crianças fazem tudo para ter atenção e reconhecimento. Tudo o que elas não querem é decepcionar a família. Mesmo quando já somos adultos temos ainda algo infantil que precisa atender às expectativas da família, nos levando a fazer coisas e viver de um modo que vai contra nossa verdadeira vontade. Isso fica mais forte quando sentimos que no passado ficamos devendo algo e decepcionamos as expectativas dos pais.
Outro sentimento que já vi surgir bastante é a sensação de que a pessoa nasceu na hora errada. Isso acontece principalmente quando se nasce em uma fase em que a família atravessa um momento difícil, ou quando se tem muitos irmãos. A criança fica com a sensação de que veio pra causar sofrimento. Novamente, nada disso é claro pra criança nem para os pais, é um processo inconsciente. A pessoa age sem ter noção de que está sendo dirigida por uma culpa ou necessidade de compensação. Acaba seguindo caminhos que levam ao sacrifício dos seus desejos reais, na tentativa de agradar aos pais. O resultado é a sua própria infelicidade, que contribui também para a infelicidade da família.
Uma reação oposta que pode ocorrer é a criança se tornar rebelde e agressiva. É a raiva inconsciente que ela sente por achar que não foi bem-vinda. É como se ela sentisse que os pais a culpam pela própria infelicidade, pelos momentos difíceis, e isso a deixa revoltada. Inconscientemente, é como se ela estivesse dizendo "me amem do jeito que eu sou, não importa o momento em que eu nasci, vocês são meus pais e tem que me amar e cuidar de mim, a responsabilidade é de vocês!". Por trás dessa revolta há sentimentos de tristeza, rejeição e culpa.
Esse jogo de expectativas vai mudando para outras fases da vida: expectativa que o filho seja heterossexual; expectativa que seja o melhor aluno; expectativa que siga tal profissão; expectativa que se case, expectativa que tenha filhos; expectativa que faça concurso. E quando a pessoa não atende ao esperado pela família, muitos sentimentos surgem: a família fica decepcionada, sente raiva, rejeita. O filho sente culpa, tenta compensar, se sente rejeitado, e às vezes também fica com raiva e se torna rebelde. E quando o filho atende as expectativas da família sem que estas sejam suas reais vontades (e muitos fazem isso sem nem saber), acaba entrando em sofrimento: dificuldades no casamento, na vida profissional, dificuldade emocionais, depressão...
Isso, realmente, aconteceu comigo, quando foi pra fazer vestibular pela primeira vez, tinha algo em mente pra fazer um curso na área de ciências humanas, como psicologia, mas acabei por fazer um curso de administração, por causa da empresa da minha família, na qual o meu pai é o dono. Inconscientemente, achei que devia isso a ele, e me formei em administração. Comecei a trabalhar na empresa dele, mas não fui feliz com essa profissão, primeiro porque ele queria que eu fosse uma pessoa diferente da que eu sou, que mostrasse respeito pelas pessoas, mas sendo durona, enfim, sendo uma pessoa que eu não sou. Enfim, detesto cálculos, matemática, sempre gostei de ser humana com as pessoas, ser justa. Trato as pessoas de igual pra igual, até porque perante Deus, somos todos iguais, irmãos. Graças a Deus consegui casar, enfim, atendei algumas expectativas como casar com uma pessoa maravilhosa, que me ama, me respeita, cuida de mim, como nenhum outro homem cuidou de mim. Trabalho com os meus pais, mas fiz o curso de Direito e sou apaixonada pelo que faço. Hoje, sou advogada por hobby, mas faço com amor, ajudo as pessoas que me pedem ajuda jurídica, ajudo financeiramente entidades filantrópicas e me sinto muito feliz, realizada, E, em breve, vou conseguir realizar os meu maior sonho de engravidar, vou poder carregar os meus filhos em meu útero, porque a minha nova tentativa de fertilização in vitro vai dar certo.
Na última Análise Corporal da Relação, em que participei no CIAR de Fortaleza, consegui vivenciar fatos que me deram bastante prazer sem culpa, e isso foi muito bom pra mim, porque vi que eu podia viver situações com a aprovação do meu pai, em que tinha um verdadeiro medo de pedir, falar com ele. Era como se existisse uma barreira entre nós dois, em que tinha que haver a figura da minha mãe para intermediar no meu pedido. Hoje, aceito e vivo essa dependência que eu tenho em relação ao meu pai, de uma forma bem melhor, diferente daquela que eu tinha quando era adolescente, e na fase dos meus 20 a 25 anos. Atualmente, tenho uma relação bem melhor com o meu pai, na qual hoje conversamos civilizadamente, e temos uma relação de afeto, carinho, e amor maior, sem falar que pude resgatar a minha auto-estima, que estava muito em baixa.
Ganhei uma paz interior enorme, as sensações de culpa se dissolveram, enquanto que o sentimento de rejeição perdeu a sua força. Voltei a olhar as pessoas e situações de cabeça erguida, a minha fala também modificou, e, finalmente, as pessoas que estão ao meu redor, como a família, amigos, notaram a minha mudança pra melhor. Até o meu problema de infertilidade comecei a ver de uma outra forma, na qual começo a rir quando acontece algo de negativo, em relação ao tratamento. Por exemplo, estava tomando uma medicação pra bloquear a ovulação e, de repente, estava ovulando e o meu endométrio não estava do tamanho que o meu médico queria. Antigamente, eu iria chorar, espernear, ficava triste e não resolvia nada, Porém, nesse dia que o meu médico falou pra interromper e começar um novo ciclo, eu comecei foi a rir, e agi de uma forma que me fez feliz. Hoje, estou muito feliz, por estar conseguindo concluir a minha 7ª tentativa, sem obstáculo, dando tudo certo e estou bastante confiante que vai dar certo, e enfim vou atender mais a essa expectativa dos meus pais, e da minha família, no geral, que estão mais ansiosos do que eu para me verem grávida.

